Ontem, 20 de janeiro, completou-se mais um ano após assassinato de Amílcar Cabral em Conacri, em condições e circunstâncias nunca esclarecidas.
Assassinado na presença da esposa, o assassinato de Amílcar Cabral não travou a luta e conquista da independência da Guiné-Bissau, mas deixa claro que complicou e se quisermos, até hoje, a efetivação do seu projeto político- estado nação de Guiné-Bissau e de tudo quanto foi idealizado para a fase pós proclamação da independência.
Volvidos 52 anos, o Estado guineense continua numa indefinição quanto o seu futuro, com problemas de toda ordem, sem desenvolvimento, estabilidade, sem educação, saúde, etc. Cabral dizia que “nós não lutamos para ter hino e bandeira” seria preciso, após içar da bandeira, mudar a vida das pessoas, criar mais e melhores condições para o povo.
Cabral foi claro nos discursos, discursos estes que fundaram o estado de Guiné-Bissau: Cultura e Progresso,
Ao nível da Cultura, concebeu a luta enquanto ato de cultura e fator da mesma, cultura, pois, o fato de estarem a luta é a mais cabal demonstração da consciência do povo, da sua relutância em aceitar a cultura do outro, defendendo os aspetos mais nobre da sua própria cultura.
Mas, principalmente necessário, mudar para melhor a vida do homem e da mulher guineense, melhor do que aquela vida vivida durante os 500 anos da colonização fascista e colonialista de Salazar e Marcelo Caetano. Será preciso mais escolas, mais hospitais, mais economia, mais riqueza e sua equitativa distribuição, mais infraestrutura, mais coesão social e nacional. Toda sua vida, lutou e bateu-se por estes motivos.
O pensamento político de Amílcar Cabral pode ser analisado nos vários momentos, mas é, principalmente, na analise intitulada “Partir da Nossa Realidade” que compreenderemos melhor o seu fim último, após uma analise profunda, que podemos resumir no seguinte, após libertar o território:
Mudar a realidade económica, mudar a realidade social, política e cultural, enfim, mudar toda estrutura colonial secular, permitindo assim construir uma sociedade nova, com base na cultura do trabalho, de luta, para alcançar a paz e o progresso.
Sem Cabral, a Guiné-Bissau segue o seu rumo, ziguezagueante, com o futuro incerto, Cabral não voltará, os guineenses que terão de ter a capacidade de criar uma intelligentsia para resolver os seus problemas. Problemas de mais de 20% das crianças com idade escolar que não frequentam a escola, de dezenas de mulheres que morrem no parto todos os anos, do analfabetismo, da falta do investimento na educação e no ensino.
Problema duma sociedade ignorante, não por opção.
Infelizmente, para quando a Guiné-Bissau, é difícil dizer. O país de imensas possibilidades e potencialidades continua a impactar pela negativa, pelos piores motivos.
20/01 de 1973, 20/01 de 2026, o que Amílcar Cabral de 28 anos de idade diria ao Amílcar Cabral de 100?