A presença de um segurança privado à porta de um estabelecimento comercial significa, normalmente, uma de duas coisas:
• que o espaço acolhe um evento privado, cujo acesso é restrito a uma lista de convidados;
• ou que se trata de um estabelecimento noturno: onde se consome álcool e, provavelmente, estupefacientes; onde a sexualidade e as sensibilidades são exacerbadas; e onde a presença de pessoal especializado é necessária para garantir a segurança do local e dos clientes.
Mas hoje, no centro da cidade do Mindelo, ilha de São Vicente, veem-se seguranças privados, em plena luz do dia, à porta de pastelarias, esplanadas e restaurantes.
É evidente que não foram contratados para proteger estes estabelecimentos de penetras ou de ânimos exaltados; mas sim para proteger a clientela turística do assédio dos vendilhões, biscateiros e pedintes nacionais.
Ou seja, a função destes seguranças é a gestão da desigualdade; e da agressividade que ela adquire num contexto urbano, anónimo e intensamente globalizado.
A cidade do Mindelo nasceu em meados do século XIX, já num contexto de intensa globalização. O Mindelo deve a sua génese, rápido crescimento e relativa prosperidade ao Porto Grande — um hub marítimo entre a Europa e a América do Sul. Em apenas algumas décadas, o Mindelo tornou-se a cidade mais populosa, moderna e cosmopolita de todo o país.
Nos últimos cinco anos, o Mindelo deixou de ser uma cidade com turismo e passou a ser uma cidade turística — da mesma forma que antes era uma cidade portuária. A diferença é fundamental: numa
cidade com turismo, os serviços de hotelaria, restauração, etc., estão integrados numa economia de base multi-sectorial; numa cidade turística, a totalidade da economia está estruturada em torno do sector.
No século XIX, a economia portuária não trouxe apenas oportunidade económica e vigor cultural: tornou-se um íman para os camponeses famintos das ilhas vizinhas, que rapidamente se amontoaram nas periferias da cidade, em condições precárias; e criou vários mercados de trabalho informais, nomeadamente o tráfico e a prostituição.
Hoje, do mesmo modo, quem não tem as qualificações ou o capital para explorar formalmente a procura turística no Mindelo está condenado a explorá-la pela via informal.
Santo Antão e São Nicolau continuam a produzir camponeses pobres. Que, tal como no tempo do Porto Grande, acorrem ao Mindelo à procura de trabalho, juntando-se aos residentes da ilha numa luta por sobrevivência e mobilidade.
Muitos dos que não têm meios para integrar o mercado formal — ou veem que a remuneração das suas parcas competências não valeria o esforço — congregam-se à entrada de pastelarias e esplanadas, tentando inserir-se no mercado turístico pela via da mendicância, burla e prostituição.
Infelizmente, a atenção dos nossos governantes limita-se ao curto prazo; e estas dinâmicas potencialmente destrutivas continuarão, previsivelmente, sem gestão adequada. Isto significa que, muito em breve, o Mindelo precisará de mais do que um punhado de seguranças privados para conter as hostes de excluídos locais em busca de uma forma de inclusão.