Os conflitos armados e as catástrofes naturais que assolam regularmente Moçambique geram deslocações forçadas e centenas de milhares de moçambicanos acumulam-se em centros de deslocados. A população é concentrada em escolas primárias, acumulando-se inúmeras famílas em salas de aula, que rapidamente se tornam insuficientes para o volume de deslocados. Nos centros de reassentamento faltam tendas, lonas, redes mosquiteiras e sanitários. Centenas de famílias partilham por vezes uma única torneira. Faltam esteiras, utensílios de cozinha, roupa seca e sabão. As crianças viveram o trauma dos pais, que perderam tudo o que juntaram ao longo de uma vida, e carecem de apoio psicossocial. A resposta humanitária é insuficiente para as necessidades alimentares, médicas e medicamentosas. Unidades móveis com enfermeiros destacadas para o terreno defrontam longas filas de pacientes.
Os casos mais vulneráveis são as famílas monoparentais chefiadas por mulheres, idosos ou doentes, indivíduos com menos ligações ao poder local ou que chegaram tardiamente ao centro de reassentamento. Invariavelmente, proliferam histórias de liderenças locais oportunistas, que incluem nas listas de reassentados elementos das respectivas famílias ou desviam para si a ajuda humanitária. As mulheres mais carenciadas são mais vulneráveis e são comuns os fenómenos de troca de sexo por comida.
É neste cenário que a Primeira Dama de Moçambique, conhecida pelo glamour com que se apresenta em público, anunciou que iria deixar o palácio da Presidência para viver temporariamente num centro de deslocados. Ainda que possa ter chamar a atenção mediática para a carencia generalizada, atraindo donativos, esta atitude tem sido entendida como um caso paradigmático de marketing político, disfarçado de humanitarismo, levantando questões sobre a exploração política da vulnerabilidade extrema. Ao simular a partilha das privações das vítimas, a Primeira-Dama promove uma romantização da pobreza, transformando o trauma real de milhares de moçambicanos numa experiência de imersão. Esta estética de solidariedade, que se foca no seu gesto simbólico e individual, desvia a atenção da incapacidade estrutural do Estado em planificar e garantir serviços humanitários resilientes às populações. A presença da Primeira-Dama nos centros funciona como uma vitrine mediática, que se concentra na empatia da figura materna da nação, ignorando a ausência de políticas públicas eficazes ou a gestão transparente das doações. A passagem efémera da primeira dama pelo centro de deslocados, com regresso garantido ao palácio presidencial, contrasta com o futuro de incerteza das famílias deslocadas, sem meios de substência e em insegurança alimentar.
Familiarizada com o caos humanitário, a população moçambicana vai apurando o sentido de humor, cada vez mais negro e cáustico. Comentando a intenção da primeira dama de dormir nos centros de deslocados, alguém ironizava nas redes sociais: “cuidado voltar grávida das tendas mãe, lá há pessoas perigosas. Desculpa qualquer coisa”.