O sector turístico foi tradicionalmente estruturado em torno de operadores consolidados. As corporações internacionais – particularmente as fornecedoras de pacotes integrados – dominavam completamente a nossa oferta, deixando pouquíssimo espaço para os pequenos operadores e comerciantes nacionais.
Durante décadas, o governo favoreceu os interesses destes investidores. Apesar da criatividade e resiliência de um conjunto de empreendimentos nacionais, o grosso do sector era monopolizado por capital estrangeiro.
De uma perspectiva de desenvolvimento sustentável, as contrapartidas oferecidas pelo investidor estrangeiro não foram equivalentes aos privilégios atribuídos:
• gozaram de isenções fiscais, em detrimento dos contribuintes nacionais;
• foi-lhes permitido praticar salários imorais, e falhar sistematicamente as suas obrigações com a protecção social;
• e criaram graves problemas ambientais e de saneamento urbano – num território minúsculo e vulnerável.
No entanto, no presente momento, este monopólio corporativo do turismo cabo-verdiano encontra-se num processo acelerado de desconstrução; um processo que já amadureceu a nível internacional, e que é movido, essencialmente pelas mesmas causas: a proliferação de corporações como a Airbnb e a Easy Net.
Numa caminhada pela periferia da cidade do Mindelo, ilha de São Vicente, vemos um tráfego intenso de turistas em espaços de que eram completamente ausentes.
São visitantes que obtêm uma experiência radicalmente diferente dos clientes do resort all inclusive: uma experiência que, por um lado, democratiza os rendimentos do sector turístico; mas que, por outro lado, cria pressões significativas a nível da governação.
No que respeita o acesso aos rendimentos do sector, os lucros que eram, anteriormente, domínio exclusivo de operadores consolidados, agora são redireccionados para cidadãos e famílias comuns, como complemento das suas rendas.
Uma parte dos rendimentos fica, obviamente com as corporações de agenciamento como a Airbnb; mas uma fatia importante entra directamente para orçamentos domésticos. Quanto á restauração e o comércio, os ganhos dos operadores nacionais são apreciáveis.
No modelo all inclusive que imperou até agora, o operador internacional não era obrigado a qualquer integração com a economia nacional: todos os stocks eram importados; e o consumo do cliente fora do resort era mínimo. Já o consumo do cliente do Airbnb é completamente voltado para o fornecedor nacional.
Para além disso, esta descentralização do alojamento resulta numa democratização da narrativa urbana. No imaginário do visitante estrangeiro, a praia genérica tropical e o centro histórico de cartão postal são substituídos por uma urbe problemática, sim, mas vibrante e multi-dimensional.
Por outro lado, as cidades europeias que atravessaram este processo na última década chegaram todas à conclusão que os riscos que ele acarreta são diversos e potencialmente desestruturantes.
Um dos mais graves – e imediatos – é a pressão que o alojamento local exerce sobre a oferta de habitação: quando todas as novas construções são voltadas para o alojamento turístico, os nacionais mais pobres são simplesmente excluídos do mercado, agravando um défice de habitação que já é apreciável.
Um segundo risco pertence ao domínio simbólico, mas é igualmente problemático: o risco da perda de identidade local. Esta dinâmica resultou em tragédias identitárias em comunidades pelo mundo afora; e representa um desafio gigantesco para micro-comunidades vulneráveis como as nossas ilhas e cidades.