No seio do partido Frelimo não existe um concenso em torno de como lidar com as manifestações populares. Um grupo mais sinistro, com o dedo no gatilho, preocupa-se com a identificação dos cabecilhas dos protestos e há muito que gostaria de ter eliminado Venâncio Mondlane. Uma outra ala prefere recorrer às vias jurídicas, responsabilizando o líder da oposição pelo caos social que assolou o país durante as manifestações. Um grupo mais moderado está disposto a conviver com Mondlane, aceitando que este organize o seu partido, com o qual a Frelimo iria depois competir: reformando-se e aproximando-se das populações, ao mesmo tempo que confia nas estruturas partidarizadas do Estado para ganhar as eleições.
Daniel Chapo ainda não se posicionou claramente sobre este assunto, mostrando até uma atitude contraditória: Num esforço propagandístico, de criação de uma imagem de líder defensor da paz, na semana da tomada de posse, Chapo foi várias vezes filmado a rezar. Mas enquanto tomava posse, uma carga policial era realizada sobre os manifestantes.
No mês seguinte, em Pemba, eventualmente entusiasmado pelas hostes mais castrenses de Cabo Delgado, prometeu que iria “jorrar sangue no combate aos manifestantes”, a quem colocou no mesmo saco dos “terroristas” ou dos “naparamas”. Já quando regressou a Maputo anunciou um acordo com os partidos com assento parlamentar, com vista à construção da Paz.
Enquanto no centro de conferência Joaquim Chissano se assinavam os termos de referência para essa negociação, balas reais eram disparadas sobre uma caravana de Mondlane.
Numa altura em que se intensifica a captura e assassinato de jovens que participaram nas manifestações, os moçambicanos ficaram surpreendidos com a realização de um encontro oficial entre Chapo e Mondlane.
Presumivelmente preocupado com a segurança dos seus membros e interessado em legalizar o seu partido, Venâncio ter-se-á aproximado de Chapo para negociar um acordo. Mas qualquer cedência terá para ele um custo político: perder o apoio de uma Renamo social que entende que qualquer mudança em Moçambique só acontecerá por via da pressão nas ruas, e que entrega todo o seu apoio no líder mais assertivo sobre a Frelimo.
Da parte do partido no poder, a estratégia parece ter sido de enfraquecer Venâncio Mondlane. Na verdade é o cinismo que o partido nos habituou: em público apela candidamente à paz, à reposição da ordem institucional e ao “vamos trabalhar”. Em privado recorre a soluções extra-judiciais para eliminar os líderes da oposição, isolando Mondlane e obrigando-o a negociar fragilizado.
O povo, esse, na sua sabedoria popular, já tem um nome para Daniel Chapo: o Presidente Mata e Reza.