A elevada pluviosidade que se registou nas últimas semanas na África do Sul e Eswatini, aumentou o caudal de inúmeros cursos de água, culminando com cheias a juzante, nas bacias dos rios Limpopo, Incomáti e Umbeluzi, afectando as províncias de Gaza e de Maputo.
Os problemas são crónicos: falta de manutenção de diques e barragens, estradas, pontes e pontecas, que cedem à fúria das águas. Inexistência de planeamento urbano ou não cumprimento de planos directores municipais. Os planos de alerta e evacuação são tardiamente implementados e carecem de meios de execução. Inúmeros indivíduos resistem aos avisos das autoridades para abandonarem as suas zonas de residência. Falta transporte para evacoação e grande parte receia abandonar o parco património acumulado ao longo de uma vida. Abandonar as residências, significa deixar para trás colchões, plasma, comida, gado. São decisões complexas, que envolvem a família alargada e que têm que ser tomadas sem recursos e sob pressão. À medida que as águas sobem, as pessoas refugiam-se no topo de árvores, carrinhas e telhados dos edifícios, isolados pelas águas e aguardando por salvamento. Pelas redes sociais partilham-se imagens de crianças recém-nascidas em cima dos telhados. Nos centros de deslocados, geralmente improvisados em escolas, inúmeras famílias são concentradas em salas de aula sobrelotadas, vivendo como mendigos, sem quaisquer apoios: coberturas, esterias, roupas secas, alimentos ou lenha. Aos técnicos do Instituto Nacional de Gestão de Desastres, visivelmente cansados, faltam meios áereos e barcos a motor, locais para assistência imediata e alimentos. Pela primeira vez em 30 anos, o país foi esquecido pela ajuda internacional e depende praticamente de si próprio.
O Estado solicita apoio gratuito a empresas privadas em meios de salvamento, mas nem dispõem de condições para comparticipar com combustível. Brigadas do partido Frelimo aproximam-se das zonas inundadas e, em bairros de Maputo, são vaiados pela população. A propaganda governamental filma Daniel Chapo, acompanhado pela primeira dama, num helicóptero, observando as inundações do Limpopo. A propaganda do Anamola filma Venâncio Mondlane nos bairros inundadas escutando os lamentos da população. A política entrou em cena e iniciou o campeoanto do líder politico mais sensível ao sofrimento do povo.
Perderam-se colheitas e dezenas de milhares de indivíduos passaram a estar fortemente dependentes da ajuda humanitária. À medida que a fome aperta, aumenta o desespero das pessoas, colocando em risco técnicos da ajuda humanitária, membros do governo ou jornalistas, todos eles incapazes de promover mudanças. Vídeos que circulam nas redes sociais mostram pilhagem de armazéns, roubando-se alimentos que se estragariam nas águas.
Tal como as dívidas ocultas, a guerra em Cabo Delgado ou os conflitos pós-eleitorais de 2024, as cheias de 2026 vieram agravar as dificuldades estruturais do país. Mas são também o produto da fragilidade do Estado. Nestas condições, cada vez menos se investirá na produção. E cada vez mais na segurança.