As desigualdades socio-territoriais em Moçambique constituem um dos desafios estruturais do país, com o Norte apresentando índices significativamente mais altos de privação em comparação com o Sul. No Norte, a privação vai além da falta de rendimento, afetando severamente o acesso a serviços básicos, relacionados com o acesso a saúde, educação ou energia. Paradoxalmente, é nas províncias do centro e do Norte do país que se concentra grande parte das riquezas do país, como carvão, gás, grafite, areias pesadas, ouro ou pedras preciosas. Com elevados índices de pluviosidade, os corredor de Lichinga, de Nacala e da Beira constituem áreas adequadas para o investimento no agro-negócio. Então como como explicar esta contradição?
Em finais do séc.XIX, uma elite económica prosperava no centro e Norte do país, em torno da costa de Nampula e Cabo Delgado, do vale do Zambeze ou de Sofala. Porém, a descoberta de ouro na zona do Transval (na África do Sul), a consequente construção de uma linha de caminho de ferro ligando à então Lourenço Marques, assim como a mudança da capital da ilha de Moçambique para o Sul do território, exerceu um profundo impacto em Moçambique
Lourenço Marques floresceu em torno dos serviços ferro-portuários e de administração do território, criando dezenas de milhares de postos de trabalho. A procura de mão-de-obra para os trabalhos mineiros e de plantação na África do Sul, comparativamente melhor pagos, teve um importante impacto na integração económica e melhoria de vida das populações do Sul da colónia. Sucessivas gerações beneficiaram de mais investimentos em infraestruturas, nestes locais de maior concentração de colonos brancos, criando vantagens no acesso à saúde e educação. No pós-independência, o aparelho central do Estado continuou a ser responsável pela absorção de uma grande quantidade de trabalhadores do Sul do país, assistindo-se a uma machanganização dos serviços públicos centrais. Já a partir da década de 1990, a proliferação de muitas ONGs e de serviços das embaixadas, escolas internacionais e, mais tarde de organizações multinacionais, invariavelmente com sede na capital, despoletaram novas oportunidades de trabalho, consolidando a capital numa economia de serviços. Grande parte das famílias do Sul de Moçambique dispõem de um membro da família que investiu no ensino e conseguiu um bom emprego no sector formal da economia. As melhores oportunidades de emprego no país são divulgadas a partir da capital, onde facilmente concorrem as populações do Sul. A integração nos secotores modernos da economia despoletou o planeamento familiar, iniciando a transição demográfica.
Por sua vez, em grande parte das famílias do Norte, os modelos de referência não constituem aqueles que investiram no ensino, mas os que abandonaram as escolas e foram fazer garimpo, pesca ou comércio informal. Em várias províncias, as taxas de fecundidade permanecem acima dos 5 filhos por mulher, contribuindo para a reprodução da pobreza nas segundas gerações e para o aumento do número absoluto de pobres. As desigualdades socioespaciais aumentam sentimentos de hostilidade em relação ao Sul ou à capital. A herança histórica é difícil de inverter. Moçambique continuará a ser, por muitos anos, um território de contrastes.