Professor será o primeiro laureado do “premio Amílcar Cabral” da Universidade de Cabo-Verde. Assim, professor Carlos Lopes, este guineense de Cantchungo, soma mais uma distinção na sua carreira inspiradora.
Carlos Lopes, nome maior de Guiné-Bissau no mundo fora…
Há menos de 2 semanas, a propósito de um curso que estive a preparar e uma aula também, tive de voltar a (re)ler dois textos de professor Carlos Lopes.
O primeiro texto de 1997- “Compasso de espera”, onde aborda vários temas ainda muito atuais em África, nomeadamente sobre Democracia e Estado weberiano que muitos países africanos instituíram sem uma reflexão profunda e original.
O segundo texto sobre “O papel da pesquisa no processo de desenvolvimento”, um texto que integra a publicação de INEP e contou com a coordenação de Diana Lima Handem- “A Guiné-Bissau a Caminho do ano 2000”.
Em ambos os textos, CL mantem uma coerência no pensamento, ousadia na proposta, mas sem se descurar daquilo que talvez melhor carateriza o seu trabalho intelectual- rigor metódica. Nas suas obras, Lopes demonstra, a semelhança daquilo que faz hoje um pouco por toda parte, como a Ciência, Investigação, podem ajudar de forma eficiente na resolução de boa parte dos problemas do continente africano, que vai desde os modelos de Estado, Democracia e, principalmente, o desenvolvimento.
Volto a falar aqui de Carlos Lopes não apenas alguém que se dedica aos seus estudos e pensamento, mas, sobretudo, por ser um exemplo, exemplo de que quando se junta rigor académica, honestidade intelectual e busca incessantes pelo aprendizado e troca de conhecimento, não se tem como perder no caminho. Carlos Lopes, até que se prove ao contrário, é o guineense com mais obras escritas sobre a Guiné-Bissau. Escreveu sobre a educação, sobre a política, sobre investigação, sobre economia, escreveu sobre sociologia, escreveu e ainda escreve sobre Amílcar Cabral. “Dominantes teóricas de Amílcar Cabral”, um texto de 1988, demonstra a profundida e domínio do pensamento de Amílcar Cabral por Carlos Lopes. Carlos Lopes deixou a Guiné-Bissau há décadas, segue pelo mundo, fazendo o mesmo que fazia enquanto Diretor do INEP, estudar, investigar, dar conselhos aos governos, presidentes, instituições, etc, com base em dados, números e treinamentos. Posto isto, hoje vejo para Guiné-Bissau e pergunto: o que deu errado?
Não pode haver dúvidas, falhou-se no cumprimento do prometido, na efetivação do projeto de estado e materialização dos discursos. Quando nos finais dos anos 70, 80 e quase início dos anos 90, Carlos Lopes insistia em chamar atenção sobre a necessidade de pensar um modelo de educação cujo ensino deve se pautar pelo domínio das novas ferramenta e produção do saber, quando acreditou que INEP deveria jogar um papel fundamental no processo de desenvolvimento da Guiné-Bissau logo no pós independência, quando tematizou o debate sobre a questão linguística associada a educação e ensino, quando lançou as pedras para o primeiro debate intelectual sobre questões ambientais, CL estava, nos anos 80, a tentar empurrar a Guiné-Bissau a fazer parte aquilo que muitos querem e estão a tentar fazer hoje, inclusive Cabo-Verde.
Daí que, pela sua trajetória, percurso, trabalho e exemplos, reconhecendo que tem no Cabral uma fonte de energia intelectual, julgo que ninguém que o melhor CL para receber a referida distinção.