Já se passaram praticamente 5 meses após o golpe farsico na sequência das eleições gerais de 2025, que deixou os guineenses sem poderem conhecer os resultados oficiais do pleito.
O argumento do golpe, como é sabido, não conseguiu convencer nem mesmo os seus donos, mas, claro, precisam fingir que estão na defesa da causa nobre.
Evitar, entre aspas, “uma guerra tribunal”, é o argumento que foi nos apresentado e a Comunidade Internacional, guerra tribal. No argumento de um novo homem forte do regime: as etnias estão dividas, as religiões estão divididas, etc. A ser mais preciso, os fulas estão divididos, balantas divididos, papeis, mandingas, etc. Ora, a pergunta é, se não seria isso o próprio elemento do equilíbrio num país multiétnico e multirreligioso?
O problema, o pior, seria se os fulas se mobilizassem contra os balantas, ou balantas contra papeis, aí seria preocupante. Mas, não, não é este o cenário que se vivia antes e durante a eleição.
Fui buscar alguns dados do histórico das eleições guineenses, por exemplo, de eleição presidência de 2019, onde Umaro Sisso Embalo foi, simbolicamente, empossado como presidente, naquela eleição, se os militares tivessem interrompido o processo eleitoral alegando evitar conflito tribal-étnico, argumento seria mais plausível e convincente.
Pois, houve apelo claramente a solidariedade étnica e religiosa, fez-se convocações com base no pertencimento religioso e houve até slogan de campanha em língua étnica- penso que os guineenses e aqueles que acompanharam o processo devem se recordar da expressão “ancala idam orema”, usada por um dos candidatos, expressão esta que apelava a solidariedade étnica do seu grupo.
Enfim, este exemplo apenas para ilustrar o quão o argumento do Alto Comando Militar é falso e carece de elementos e provas. Olhando para as relações e dinâmicas étnicas guineense vê-se que não há condições para a chamada “guerra tribal”. A última eleição tinha, claramente, demonstrado que na Guiné-Bissau o povo é quem e deve ser quem mais ordena. Infelizmente, há gente ainda que finge não entender isso. Infelizmente. É preciso que a classe militar guineense, nomeadamente, altas patentes, tenham a consciência histórica da classe a que pertencem, da missão e do papel histórico das Forças Armadas. Deve-se ter respeito pelos guineenses, pelas decisões, preferências e vontades do povo. A constituição da República de Guiné-Bissau, no seu artigo primeiro consagra toda soberania no povo guineense, isto não pode e não deve ser desvirtuado.
É preciso acabar com este tipo de atitudes e comportamentos na Guiné-Bissau, já vai a tempo, ficou evidente que a Guiné-Bissau se tornou um assunto chato e cansativo para muitos, por isso que é necessário a tomada de consciência, acabar com a tradição das autoridades sem legitimidade a dirigir o povo apenas na base da força.