Nas democracias contemporâneas, a supervisão directa da governação pelo cidadão é impossível. O eleitor passou a depender de informação recolhida e interpretada por profissionais. Mesmo num micro-estado como Cabo Verde, um jornalismo investigativo e independente é uma componente central na formação de uma cidadania consciente.
Estamos a dois meses das legislativas; e as reportagens em torno da pré-campanha já evidenciam os habituais vícios do jornalismo politico cabo-verdiano. Aliás, em Cabo Verde, é impossível falar das insuficiências do regime democrático sem falar das insuficiências da nossa comunicação social.
O primeiro obstáculo a uma comunicação social livre e pró-ativa é a exiguidade do nosso mercado, que impossibilita a sobrevivência comercial de qualquer projecto mediático, pela via da publicidade, vendas ou subscrições.
Existem algumas experiências interessantes nas redes sociais; mas, ao contrário da nossa música, as notícias sobre Cabo Verde são consumidas apenas por cabo-verdianos; e a pequena dimensão da audiência não gera os fluxos de monetização necessários para profissionalizar estas iniciativas.
Resta a comunicação social estatal. Em épocas de campanha, os únicos canais com os recursos materiais e humanos para realizar uma cobertura in loco dos candidatos e das suas plataformas de campanha são a televisão, a rádio e a agência noticiosa do Estado.
Infelizmente, a maioria esmagadora dos jornalistas e chefias desses órgãos está ciente que, no universo em que labutam, o trabalho investigativo não é premiado; é castigado.
Apesar da nossa aura de democracia funcional, os sucessivos governos da república tiveram o cuidado de manter os órgãos estatais de comunicação sob um controle férreo: liderados por chefias subservientes, sem qualquer qualificação para o cargo; e dispostas a cancelar qualquer profissional que ouse dar espaço a questionamentos da linha narrativa do Estado.
O resultado é um jornalismo de campanha que não informa o público sobre o passado politico dos candidatos; que não os questiona sobre a repetição de promessas nunca cumpridas; ou sobre os meios pelos quais pretendem materializar as suas propostas de governação.
Sob uma capa de neutralidade, a cobertura do processo eleitoral pelos órgãos de comunicação do Estado limita-se a conceder tempo de antena aos atores políticos, permitindo-lhes inundar o eleitor de propaganda, sem submetê-los a qualquer contraditório.
Por um lado, o interesse das nossas elites políticas em eternizar estas práticas é evidente; por outro lado, mesmo com as enormes limitações do mercado nacional, a informação noticiosa – assim como alguma análise contextual – acaba por circular em canais alternativos; e as fissuras nas narrativas oficiais tornam-se cada vez mais evidentes.
Para nos apropriarmos de facto do poder que nos pertence por direito, enquanto cidadãos numa democracia, temos que reflectir com seriedade sobre a forma como somos informados; e como somos sistematicamente manipulados pelas satélites informativas do poder politico – particularmente em vésperas de eleições.