Venâncio Mondlane vai ser julgado pelo tribunal supremo, acusado de cinco crimes, entre os quais de incitação à desobediência colectiva e ao terrorismo. Durante os meses que se seguiram às eleições, dezenas de milhares de jovens bloquearam estradas, incendiaram sedes do partido Frelimo, esquadras da polícia e estabelecimentos administrativos. Nas suas lives no facebook, Mondlane proferia discursos inflamados contra a fraude eleitoral, contra os obstáculos para a realização de manifestações e contra a violência da polícia, incentivando ao protesto.
Ao longo das manifestações pós-eleitorais estruturou-se um ciclo vicioso de violência, durante o qual a resposta desproporcional da polícia foi aumentando a agressividade dos protestos, que teve como resposta o aumento da violência da polícia. Perante o assassinato indiscriminado de jovens indefesos, Mondlane recorreu à Lei de Talião, apelando que, por cada elemento da população assassinado, o elemento responsável da Unidade de Intervenção Rápida fosse “varrido da existência”. Mas durante as pilhagens da quadra natalícia, que simbolizaram o climax dos protestos, a participação foi generalizada. Populares e elementos das forças de defesa e segurança, também eles agastados com a situação, participaram em conjunto no saque.
O interesse selectivo da PGR em Venâncio Mondlane contrasta com a estranha letargia na investigação dos inúmeros indícios de fraude eleitoral. Contrasta com a passividade na investigação dos disparos da polícia sobre manifestantes indefesos, do rapto e assassinato de jovens que lideraram os protestos. Contrasta com a indiferença em relação às palavras de Daniel Chapo quando, poucas semanas após tomar posse, referia a necessidade de defender a pátria contra as manifestações, mesmo que seja necessário “jorrar sangue”.
A reconciliação nacional implica o reconhecimento da verdade, a investigação dos excessos, o julgamento dos promotores e a indemnização das vítimas. Por fim implica uma amnistia, seguida de reformas para despartidarização do Estado. Ao invés, opta-se pela perseguição selectiva do líder dos protestos, transformando-o no bode expiatório dos problemas do país. Incriminando-o, mesmo com uma pena pena leve seguida de um indulto, constituirá o cadastro necessário para o impedir de se candidatar em futuras eleições. Mas será uma cartada arriscada: uma condenação de Mondlane correrá o risco de provocar novos tumultos sociais, agravando ainda mais o clima económico. Largamente endividado, o Estado apresenta-se incapaz de proporcionar um alívio das condições de vida, alimentando a repulsa de muitos sectores da população em relação à Frelimo.
Um julgamento mediático constituirá a melhor oportunidade para que, no seu estilo de pastor evangélico, Venâncio encene o seu papel preferido: o de líder de messiânico, disposto a se sacrificar pelo povo, na sua missão de o encaminhar para a terra prometida. Mondlane já foi várias vezes dado politicamente como morto, mas sempre renasceu como mártir. Mais forte. Foram precisamente os obstáculos que lhe foram criando na sua trajectória política, que lhe permitiram a ascenção. Mas mesmo assim, a Frelimo insiste.