No Super Bowl de domingo passado – o embate desportivo mais antecipado dos Estados Unidos – o tradicional espetáculo musical do intervalo ficou a cargo do artista porto-riquenho Bad Bunny; e o meltdown da base MAGA de Donald Trump foi violento.
Em 2025, o rapper Kendrick Lamar enfureceu os conservadores americanos com um espetáculo celebratório da cultura popular negra – e denunciador da injustiça sistémica que assola a sua comunidade. Este assalto simbólico à identidade branca conservadora – num evento desportivo que lhe é sagrado – valeu a Lamar uma projecção política e cultural excepcional.
Em 2026 – quando a população hispano-americana encontra-se sob a mira violenta de um governo extremista – o debate central é sobre os direitos das populações pan-americanas – expropriadas, deslocadas, escravizadas ou exterminadas pelos sucessivos governos dos Estados Unidos. Neste ambiente político explosivo, o show solidário de Bad Bunny agiu como um detonador.
No Brasil dos anos 1960, durante a ditadura militar, artistas politicamente dissidentes, como Chico Buarque e Caetano Veloso, foram os críticos mais ferozes do status quo; e foram obrigados a exilar-se para fugir á repressão violenta do regime.
No início dos anos 1970, o compositor português Zeca Afonso viu muitas das suas canções censuradas pelo Estado Novo. Espantosamente, Grândola, Vila Morena” – a sua composição mais famosa – escapou.
E foi ela que Otelo Saraiva de Carvalho – o estratega-mor do 25 de Abril – e o seu co-conspirador, o locutor João Paulo Diniz, escolheram como código para comunicar aos capitães do Movimento das Forças Armadas, via emissão radiofónica, o sucesso do golpe e da revolução.
A política entrincheirada sempre morreu de medo de poetas e músicos. Narrativas ideológicas despertam consciência e reflexão; mas música e versos despertam emoção; e emoção desperta urgência, confiança, solidariedade – tudo o que a classe dominante teme, numa sociedade desigual.
Nos regimes autocráticos, artistas dissidentes são perseguidos; nos pseudo-democráticos como o nosso, são desacreditados; e excluídos obviamente, de financiamentos e patrocínios estatais.
Mas a verdade é que a música é o único sector da arte cabo-verdiana que sobrevive sem patrocínios públicos; porque é o único que tem mercado. A música Cabo-verdiana é consumida avidamente por residentes e diáspora; e é a nossa única exportação cultural verdadeiramente relevante. Sendo assim, onde estão os Bad Bunnies Cabo-verdianos?
Géneros como o Hip-hop Kriolu debruçam-se sistematicamente sobre temas politicamente sensíveis – como pobreza, periferia, crime, e o caráter social do abuso de substâncias. No entanto, nenhum artista parece fazer o suficiente para perturbar as sensibilidades delicadíssimas da nossa classe política.
Porquê? Num contexto de violência urbana e desigualdade crescentes, com uma juventude desencantada, sedenta de visibilidade e mudança, como é que o enorme acervo de talento musical cabo-verdiano não se politiza?
A nossa música é financeiramente independente, tem uma audiência desproporcionalmente alargada; então, como é que não participa, de forma contundente, na onda de questionamento político que se alastra pela sociedade civil? Repito: onde estão os Bad Bunnies Cabo-verdianos? Onde estão os artistas dispostos a arcar com as consequências de destabilizar o status quo?