Na semana passada, foram noticiados os resultados de uma sondagem – realizada pela companhia Afrosondagem, em dezembro passado, num universo de cerca de 3000 inquiridos. O objectivo era conhecer as percepções do público sobre os líderes de cada partido; e as suas intenções de voto.
Sobre o nível de notoriedade das duas principais candidaturas, a de Ulisses Correia e Silva – Primeiro Ministro e líder do Movimento para a Democracia – é quase universal; e a de Francisco Carvalho – presidente da Camara Municipal da Praia e líder do PAICV ronda os 80%.
Sobre intenções de voto, a sondagem indica que 31% dos inquiridos votaria no MpD ; 25% no PAICV; e apenas 4% na UCID, reduzida mais uma vez ao círculo de São Vicente.
Sobre a participação nas urnas, a sondagem indica que 72% dos eleitores pretende exercer o seu voto – contra 19% que não participará; e 9% que ainda não se decidiu, ou prefere não se posicionar.
Qualquer observador politico sabe que os resultados de sondagens desta natureza não oferecem qualquer certeza sobre os resultados efetivos das eleições.
Inúmeras sondagens são subvertidas pelos resultados que pretendiam prever. Um dos exemplos mais mediático aconteceu em 2016, quando as principais sondagens davam a Hilary Clinton uma vitória confortável sobre Donald Trump nas presidenciais americanas.
Portanto, é evidente que só depois das legislativas saberemos se as tendências indicadas por esta sondagem se confirmarão ou não. No entanto, o comportamento dos vários atores políticos depois de conhecidos os seus resultados levanta questões interessantes; e pode oferecer pistas sobre a leitura que as duas principais candidaturas fazem da presente conjuntura.
Vejamos as datas favorecidas pelos candidatos para a realização das legislativas. Auscultado pela presidência da República, o PAICV, indicou a data de 19 de Abril – logo no primeiro dia permitido pela Constituição. Ofereceu como justificação a urgência de pôr fim à alegada sabotagem do país pelos atuais governantes.
Demagogia à parte, favorecer a antecipação das eleições não é um comportamento racional para um partido que é dado como derrotado. Se o PAICV perspectivasse uma derrota, procuraria adiar as eleições o máximo possível, para ter tempo de reverter a situação.
Mas não; é o MpD – dado como vencedor pela sondagem – quem quer adiá-las; alegando que o seu mandato só termina em Maio, e que ainda tem muita obra por fazer.
Infelizmente, não parece credível que um governo que está no poder há dez anos seja capaz de reverter o insucesso da sua governação nos próximos seis meses.
O mais provável é que a Maioria esteja ciente da desvantagem em que se encontra; e necessite de tempo para implementar uma estratégia baseada, como é habitual, no assistencialismo e no clientelismo partidário.
Outra previsão intrigantes desta sondagem é uma taxa de abstenção inferior 28%. A saturação dos eleitores cabo-verdianos com o status quo tem-se reflectido numa taxa de abstenção crescente. Em 2021, a média foi de 42,2%.
Em 2026, temos os mesmos partidos desgastados; a mesma classe política desacreditada; e a única novidade – a candidatura de Francisco Carvalho – continua polémica em vários segmentos do eleitorado. Portanto, qual seria a causa de um aumento tão drástico da taxa de participação nas próximas legislativas?
Ou seja, perante estes e outros elementos descritos na sondagem, devemos não só questionar a fiabilidade dos resultados; com o perscrutar as reações dos atores envolvidos.