O espelho surge como companheiro real e metafórico, testemunha silenciosa das mudanças do corpo, das inquietações do futuro, das incógnitas e dos receios assumidos. “Spedju” é um olhar profundo para dentro, um atravessar dos reflexos no tempo, onde a artista se permite ver e mostrar, sem filtros. Nesse percurso, o tema “Dôdu” encoraja o autoconhecimento livre de padrões e julgamentos, convidando ao exercício de ser exatamente quem se é. O álbum é maioritariamente de autoria de Elida Almeida, à exceção de “Kumbosa” (batuque) e “Baka Brabu” (funaná) esta, a sua versão de um tema que a transporta ao aconchego das memórias da infância, reafirmando a ligação às raízes e à herança cultural. Ao longo do disco surgem fragmentos súbitos da sua vivência pessoal e dos desafios da convivência. Em particular, a relação entre pais e filhos ganha destaque em “Daddy”, tema que evidencia a importância da presença masculina, a figura do pai na vida das crianças, uma ausência sentida por Elida ao longo da sua própria história e aqui assumida com clareza e emoção. “Funa Ku Nana” apresenta-se como um funakous que exprime a origem do género funaná, evocando o percurso histórico marcado pela escravatura que levou às composições de protesto que serviam de alento à dor coletiva. Em “Mentira”, um dueto há muito desejado, com Grace Évora, desenha-se um retrato do quotidiano conjugal, num diálogo intenso entre um casal, onde acusações mútuas revelam os desencontros e fragilidades da relação. Já em “Nka Ta Pasa” celebra o espírito resiliente da mulher cabo-verdiana, captando a energia vibrante dos mercados locais, palcos vivos de encontros, dramas e acontecimentos diários que espelham a realidade social de Cabo Verde. Essa vivência tem também uma raiz profundamente pessoal, a mãe de Elida Almeida, foi vendedora em mercados, tendo a artista crescido nesse ambiente pulsante, entre vozes, ritmos e histórias, absorvendo desde cedo a força, a solidariedade e a luta quotidiana que hoje se refletem na sua música. |
