“Nação PALOP”, o novo programa da RDP África, leva-nos numa viagem pelos últimos 50 anos dos países africanos de língua portuguesa. Aqui, semanalmente, destacamos a importância da música na construção da vida coletiva dos PALOP. Tudo isto pela mão de Nuno Sardinha.
O que faz da “Nação PALOP” um projeto diferente daquilo que já vimos sobre a música africana lusófona?
O que a Nação PALOP faz é dar a conhecer em pormenor, com rigor histórico e com base em depoimentos recolhidos ao longo de anos, momentos fundamentais de desenvolvimento de carreiras e movimentos musicais. Cada episódio reúne, em média, mais de vintes gravações originais e apresenta factos e episódios pouco conhecidos do grande público. É por isso um trabalho que acrescenta ao que sabemos sobre a música africana dos últimos 50 anos e permite dar contexto sociocultural aos registos sonoros gravados neste período em que a história ainda não está escrita.
O “Nação PALOP” é um projeto único em escala e profundidade. Que desafios este programa lhe trouxe em relação a trabalhos anteriores?
O principal desafio que encontrei foi sobretudo a dificuldade de compilação sonora dos trabalhos anteriores a 1980, pois é um período em que existem poucos registos ou que se perderam em situações de instabilidade política. O caso mais gritante acontece com os artistas guineenses, cujo arquivo da rádio nacional foi vandalizado durante a guerra civil de 1998.
Que papel acredita que esta viagem no tempo pela música africana lusófona terá nas novas gerações?
As novas gerações ganham com este trabalho um exercício de exposição da memória coletiva. De forma apelativa em dois formatos, um curto, com 15 minutos e outro mais longo, com 50 minutos, têm a oportunidade de compreender os movimentos sonoros que marcam e marcaram os tempos de independência nos PALOP. O projeto tem na pratica dois objetivos, compilar o que se sabe sobre um tema e acrescentar histórias pouco conhecidas de algumas das referências musicais dos nossos ouvintes.
Há momentos em que a música tradicional se mistura com estilos modernos, como o hip-hop ou a kizomba. A dita “nova” música ganha novas camadas de significado ou corre o risco de perder a essência?
Noto a cada dia que passa que os novos autores procuram abordagens musicais originais, mas com uma raiz que os ligue às suas culturas. Ou seja dando dois passos em frente ao mesmo tempo que dão um passo atrás. Criam-se assim movimentos novos que bebem das correntes musicais que os viram crescer e que os identificam. Por isso, muito do que chega ao mercado acrescenta ao que os músicos de outras gerações conseguiram construir . É a sua visão da música, muito mais aberta ao mundo e por isso com novos condimentos que fazem dela um produto novo.
O Nuno já contactou e privou com centenas de artistas. Algum músico contou-lhe uma história tão pessoal ou inesperada que mudou a forma como vê a música ou a sociedade dos PALOP?
A vida de um repórter nos bastidores de um festival em África é quase a de um fotógrafo que regista imagens de momentos únicos e irrepetíveis. Vejo-me muitas vezes a imaginar onde podem chegar pérolas da música africana que vou encontrando em inicio de carreira. Hoje, 30 anos depois do inicio dessa aventura, posso dizer que sou (ao lado de uma equipa que faz a RDP África todos os dias) um protagonista desse movimento que esteve no inicio da vida artistica de muitos dos ídolos dos nossos tempos. Talvez ninguém acredite que os Calema (que são hoje uma referência na música lusófona) começaram a sua carreira lá no sul de São Tomé, a copiarem os artistas brasileiros que viam em videoclips em VHS e a tocarem em guitarras feitas com cordas feitas de cabos de travões de automóveis. Quando se conhecem histórias de superação como esta é nossa missão incentivar outros novos “Calemas” a ir em frente, apesar da falta de quase tudo….e não desistir dos sonhos. A rádio tem sido esse instrumento.
O “Nação PALOP” estreia no ano em que a RDP África celebra 30 anos de emissões. A que sabe estas três décadas de divulgação do património cultural dos PALOP?
Ao analisar o que conseguimos mostrar em 30 anos, fico com a ideia de que ainda há muito trabalho para fazer em prole da divulgação cultural destes povos. Como se costuma dizer “África” não é um país e as realidades são tantas e tão diversas que teríamos de percorrer cada país de uma ponta à outra para conseguirmos cumprir em pleno o desafio inicial do projeto RDP África, de ser um verdadeiro espelho cultural dos povos lusófonos e de ser a ponte para os unir os estão cá e estão lá. E isso passa por continuar a levar o mundo a África e a África ao mundo.
“Nação PALOP” apresenta-se em dois formatos: às quintas-feiras, pelas 16h35, chega-nos um programa mais curto com apenas 15 minutos. Aos domingos de manhã, pelas 10h10, a nossa viagem sonora é mais longa e traz-nos toda a essência da música africana.