A Ignorância do Eleitor
Em 2015, quando o final do ciclo político do PAICV era aparente, foi noticiada uma taxa de crescimento económico inferior a 3% do PIB — uma cifra que não ajudava em nada as perspectivas eleitorais da então maioria, que em tempos prometera levianamente um crescimento económico a dois dígitos.
Leal ao governo, um dos panfletos partidários que compõem a nossa paisagem informativa publicou a notícia da seguinte forma: a taxa não era anémica; muito pelo contrário, era superior à de países desenvolvidos, como os Estados Unidos ou a Alemanha.
Esta narrativa lamentável ilustra claramente a aposta que as classes políticas, pelo mundo afora, fazem na ignorância dos cidadãos. Um cidadão desinformado não sabe definir o PIB; não sabe argumentar que 2% de crescimento na enormidade da economia alemã tem um significado radicalmente diferente de 2% na nossa economia anã.
A ignorância do eleitor garante a sua passividade e aumenta exponencialmente a sua probabilidade de ser ludibriado pelos discursos da classe política — e da comunicação social a ela atrelada.
Tudo indica que nos encontramos de novo no final de um ciclo político, desta feita do MpD. Na campanha para as legislativas de 2016, a maioria prometeu solucionar todos os dossiês problemáticos em que o PAICV fracassou.
No entanto, dez anos depois, nenhuma promessa foi cumprida: os transportes foram um caos ininterrupto ao longo dos dois mandatos; a insegurança na capital continua; e os jovens cabo-verdianos emigram em massa, em busca de melhores oportunidades.
Tal como o PAICV em 2015, o governo do MpD também procurará, certamente, beneficiar-se da ignorância do eleitor para garantir um difícil terceiro mandato.
Mas não estará só; o PAICV também tentará, certamente, ludibriar o eleitor com falsas narrativas sobre o histórico da instituição e com promessas que — tal como as de José Maria Neves em 2001 e as de Ulisses Correia e Silva em 2016 — dificilmente se cumprirão.
As organizações partidárias cabo-verdianas existem num estado de estagnação ideológica, onde o compromisso da classe política com o partido tem prioridade sobre os compromissos assumidos em campanha com o eleitor.
Os partidos não dão qualquer sinal de corrigir voluntariamente estas práticas antidemocráticas. Portanto, a questão que se põe é: e o eleitor cabo-verdiano? Evoluiu? Terá mais discernimento nas próximas eleições? Exigirá melhores representantes quando as listas forem socializadas? Saberá exigir trabalho dos próximos eleitos? Não parece.
Nos últimos ciclos eleitorais, os eleitores têm demonstrado a sua falta de confiança no sistema político através de altíssimas taxas de abstenção. Altas taxas de abstenção retiram credibilidade aos eleitos, mas não modificam o sistema.
O trabalho que precisa de ser feito é um diálogo exigente do povo com as forças políticas existentes; e, fundamentalmente, a produção de novos actores políticos e partidários que ponham fim às nossas longas ditaduras da maioria.