A cidade da Praia é apelidada de “Pérola do Atlântico” por brochuras turísticas e por políticos em campanha. De facto, o potencial urbanístico da sua belíssima costa e dos seus plateaus é enorme. Infelizmente, a capital tem sido votada ao descaso por gestores e habitantes.
Os pecados dos gestores têm sido extensivamente tratados por inúmeros comentadores do país: o desastre do saneamento, o grave défice de habitação, a gestão eleitoralista e corporativista do território…
Mas os problemas da capital não resultam apenas da falta de visão e do egoísmo dos poderes públicos; resultam também de uma dialéctica tóxica entre a má gestão pública e a má cidadania.
Chamamos civismo à responsabilidade que cada indivíduo sente perante a sua comunidade. Como toda a norma colectiva, esta é talhada pelas circunstâncias que formaram o indivíduo e que determinam o que ele define como sua “comunidade”.
A constituição do Mindelo — o outro polo urbano do país — foi mais orgânica do que a da Praia. O Porto Grande — a plataforma económica sobre a qual o Mindelo foi construído — dominava o modo de produção da ilha e, consequentemente, a formação cultural e identitária dos moradores.
No interior de Santiago, a ribeira materna constituía uma componente essencial da identidade individual. As obrigações para com o território e os outros membros da comunidade eram universalmente compreendidas e assumidas.
Mas a cidade da Praia — um enclave colonial burocrático numa ilha essencialmente agrária — era um universo identitário reduzido, sociologicamente isolado da restante população.
No Mindelo, bairros urbanos e suburbanos contribuíam para a identidade dos moradores; mas a generalidade dos habitantes — desde o trabalhador portuário da então periferia até ao comerciante burguês do centro — apropriava-se diariamente da cidade: do seu porto, do seu mercado, das suas praças, das suas escolas, de um conjunto apreciável de serviços para o país e para a época.
Contrariamente, a cidade da Praia não logrou crescer de forma orgânica, como uma colectividade íntegra, mobilizadora de identidades e da lealdade dos seus munícipes.
A Praia da época colonial caracterizava-se pelo isolamento social; e, quando explodiu em dimensão no pós-independência, o choque foi violento. O crescimento, grandemente alimentado por migrantes rurais, reuniu na cidade uma população sem referências partilhadas para o território que agora ocupava.
O Plateau — o anterior centro da identidade praiense — foi rapidamente diluído num amálgama de bairros que se tornaram mais centrais para a identidade do praiense do que qualquer conceito de cidade. O resultado trágico é a indiferença dos munícipes perante a cidade.
No vazio de gestão municipal que tem caracterizado todo o país, e numa cidade da dimensão da Praia, essa indiferença constitui um passivo destrutivo que se evidencia no descaso pelo saneamento, pelas regras do trânsito e pela segurança do outro — ou seja, em todos os aspectos que contribuem para a rudeza que caracteriza a vida na capital.