A cidade de Lourenço Marques (actual Maputo) foi construída como um espaço de contrastes. Com planificação urbana e um traçado geométrico, os bairros nobres do centro da cidade dispunham de condições urbanas de saneamento, electrificação e uma ampla infraestrutura de serviços sociais e de lazer: aeroclubes e clubes náuticos, piscinas e campos de golfe, bares, restaurantes e zonas de recreio. Conhecido por chilunguini (em ronga a zona dos brancos), o centro da cidade era habitado por uma elite branca composta por funcionários públicos, empresários e profissões liberais. Alojando a mão-de-obra abundante e barata para os trabalhos ferro-portuários, domésticos e de limpeza, nos subúrbios predominava uma construção irregular, predominantemente de caniço ou de madeira e zinco.
Lourenço Marques estruturava-se entre o cimento e o caniço e a elite branca vivia alienada na sua bolha, com a ilusão de protecção. O contacto com o caniço resumia-se às relações diárias com os respectivos empregados dométicos. A guerra estava lá longe, no Norte, e não constituiua notícia numa imprensa controlada pela censura.
Nas décadas de 1970 e 1980 assistiram-se a esforços de alargamento das oportunidades de saúde, educação e habitação, esbatendo-se as desigualdades sociais. Na escola pública, o filho do professor ou do director nacional, estudava com o filho do operário. Mas o novo regime começou a criar a sua relativamente modesta numenclatura, geralmente composta por altos funcionários públicos, com acesso às chamadas lojas dos responsáveis, ainda que limitadas pelas dificuldades de importação.
Com a liberalização da economia, voltaram a florescer novas elites, agora mais heterogéneas. Em primeiro lugar destacou-se uma classe Estado, composta por altos funcionários públicos, cada vez menos modestos. Mais próximos dos centros de decisão, tiveram facilidade de aquisição do património público a preços simbólicos (empresas públicas a residências nas zoans nobres), que depois colocaram no mercado, de forma rendeira, em aliança com o capital estrangeiro.
Com estreitas relações com o grupo anterior, floresce um sector empresarial, frequentemente relacionado com o import export, com os negócios dos câmbios e com crescentes suspeitas de relacionamento com o tráfico de droga e branqueamente de capitais.
Em terceiro lugar destacam-se os altos quadros das Nações Unidas, de agências de desenvolvimento e não governamentais, que instalam os seus escritórios e residências nos bairros nobres da Sommershield, pagos em dólares e abrindo oportunidades a muitos quadros moçambicanos mais qualificados. O sector privado (da banca, da indústria extractiva e de construção) permitiu o florescimento de uma classe média, que se instalam nos espaços nobres da cidade, das praias do Bilene, da Ponta do Ouro ou da Macaneta.
A dicotomia cimento caniço esbate-se, à medida que se formam condomínios privados em zonas peri-urbanas da cidade, invariavelmente protegidas por vigilantes e empresas de segurança privada. Maputo transforma-se na cidade dos guardas, que constituem uma
força laboral de dezenas de milhar de trabalhadores, frequentemente com treino militar, num efectivo superior ao das forças de defesa e segurança de Moçambique.
Apesar de estarem mais próximas dos centros de decisão, de poderem pressionar por políticas públicas de defesa da educação e saúde pública, as novas elites estão conformadas com a sua possibilidade de acesso os serviços privados, nas clínicas e escolas internacionais de Maputo, da vizinha África do Sul, ou no Ocidente. Em vez de optarem por ser progressistas, escolhem ser conservadores. A guerra, que se prolonga lá no Norte do país, uma vez mais está lá longe. Uma vez mais, as elites dormem descansadas, na sua bolha, com a ilusão de protecção.