Cabo Verde é um território minúsculo, paupérrimo, e politicamente periférico. No entanto, não obstante a nossa insignificância a nível internacional, a própria génese do país é resultado de uma dinâmica de globalização: a internacionalização da economia atlântica, a partir do século XV.
Aliás, dado o nosso baixíssimo potencial agrícola, historicamente, a economia Cabo-verdiana só prosperou num contexto de globalização: seja a Ribeira Grande de Santiago no século XVI, o Porto Grande do Mindelo no século XIX, o aeroporto do Sal no século XX, ou os resorts da Boa Vista no século XXI, as nossas comunidades locais só crescem e prosperam quando inseridas, de forma robusta, nas correntes de troca internacionais.
No pós-independência, o estado soberano encontrou uma nova forma rentável de se inserir de nos fluxos globais: através da arrecadação de ajuda internacional ao desenvolvimento.
A ajuda pública começou por ser um imperativo de sobrevivência: a única forma de implementar serviços públicos básicos. Mas, tragicamente, acabou por ser o modelo de desenvolvimento económico favorecido pelos sucessivos governos da República: investimento público e contratação, financiados pela ajuda internacional e por empréstimos concessionais.
Quanto ao turismo – a maior indústria privada do país – o sucesso do sector e o seu desenvolvimento sustentável também dependem grandemente do contexto internacional.
Se a nossa sobrevivência é historicamente dependente da nossa capacidade de nos inserirmos produtivamente em dinâmicas globais, sejam elas públicas ou empresariais, a questão que se põe, é a seguinte: os nossos políticos, académicos, ou sociedade civil, já
demonstraram essa capacidade indispensável para conceber o bem estar nacional em termos globais? Não parece.
No que respeita reflexões sobre a política externa, o governo limita-se a anunciar novos pacotes de ajuda – que deverão resolver definitivamente todos os nossos problemas de emprego, infra-estruturas; desenvolvimento empresarial, etc.; a oposição denuncia, por mero reflexo, a alegada inadequação da iniciativa; e a sociedade civil só reclama quando o escândalo é incontornável – como, por exemplo, os acordos de pesca draconianos celebrados com a União Europeia.
Em 2022, a guerra na Ucrânia causou uma subida abrupta dos preços de bens de primeira necessidade, a ponto de o pão passar a ser subsidiado pelo estado.
A partir de 2023, a guerra na Palestina – que agora se alastra pelo médio oriente – demonstrou a volatilidade da ordem contemporânea. E a partir de 2025, o segundo mandato de Donald Trump na presidência dos Estados Unidos agravou a vulnerabilidade do Sul Global aos comportamentos predatórios do Ocidente.
Esta imprevisibilidade deveria suscitar a preocupação de todo o governante responsável; uma preocupação que deveria, por seu turno, provocar um debate social alargado, sobre os perigos e contingências que nos esperam num futuro incerto.
Infelizmente, o diálogo político Cabo-verdiano continua completamente alheio a estes temas. As nossas corporações partidárias continuam focadas exclusivamente em narrativas fantasiosas de auto-promoção e bota-abaixo do adversário, imperturbadas por uma sociedade civil convenientemente alienada.