Chegou-se o fim do ano na Guiné-Bissau, mas não fim dos problemas, das dúvidas e das incertezas. Não direi que foi um ano difícil para os guineenses, pois, é o que guineenses foram habituados e forçados a se acostumar. Instabilidades, crises e roturas de ordem diversas. Contudo, estes dois últimos anos foram particulares. Particulares porque os guineenses foram desafiados a demonstrar a sua capacidade de resistência e muito mais, escolheram um parlamento em 2023, nunca o viram a funcionar, foram impostos uma nova dinâmica política, dinâmica esta que não escolheram e nem foram consultados para tal, mas, se mantiveram calmos e serenos, pacientemente, quase que de forma religiosa, aguardaram pelas eleições gerais deste ano que hoje se termina, ao exemplo de muitas vezes na sua história, o povo guineense compareceu massivamente as urnas, votaram, muitas andaram lugares distantes, para dizer, através do voto, o que desejam e querem para o seu país, enquanto os verdadeiros donos do poder, uma eleição que tinha tudo para ser apenas um momento do povo delegar quem de fato deve dirigir o seu destino nos próximos tempos, foi interrompida por uma atitude e comportamento que muitos não conseguiram descrever (dito golpe)- aliás, ex-Presidente da Nigéria o chamou de “Golpe Cerimonial”.
Sim, golpe cerimonial, porque a escassas horas de se conhecer o vencedor das eleições, Umaro Sissoco Embalo anunciou, ele mesmo, que estava sendo alvo de um golpe de Estado. Desde então, um alto denominado comando militar reivindicou a autoria do golpe e passou a assumir o poder de fato, enquanto isso, a oposição, aqueles que faziam oposição ao USE continuam detidos e escondidos. Algo que exige a compreensão que a nossa inteligência não seria capaz.
Para onde se caminha Guiné-Bissau em 2026, é demasiado arriscado dizer, o que será da Guiné-Bissau e dos guineenses em 2026? Será sempre um mistério. Mesmo na ausência de USE, tudo se mantém igual, raptos, espancamentos, cerceamento dos direitos e das liberdades, trata-se do mesmo modus operandis e facienci, pergunto, afinal, que mal representava afinal USE? Ou, melhor, qual é a diferença entre USE e Horta Inta-Á, que se assumiu como o novo homem forte disto tudo?
Enfim, duro, desgastante e complicado, o que resta deste pequeno país cravado no dorso da África ao sul da Saara? Como disse o ditado- nem tudo está podre no reino do lixo, o povo, o povo da Guiné-Bissau, continua inquebrantável e recusa-se a vergar perante a deriva ditatorial, mantém acesa a chama da liberdade, da justiça, da paz, do progresso e da solidariedade. O que este país continua a ter de bom e do melhor é o seu povo.
Um povo diverso nas cores, nos traços, no jeito, no sorriso, nas marcas e nos atributos, mas um povo unido pela mesma história, a história da mesma luta, a luta que criou raízes, raízes estes que permitirão que um dia, este povo se possa ser arvores do mesmo tronco e com olhos postos na mesma luz- alcançando assim, a tal nação africana forjada na luta.
De fato, os tempos são difíceis, mas, ainda se vai ao tempo.
Nada está perdido.