Direita e Esquerda
Na África pós-colonial, as ideologias de Direita e Esquerda professadas pelas organizações políticas são essencialmente discursivas.
Esquerda e direita são conceitos fundamentados sobre relações de produção capitalistas; sobre uma oposição entre trabalhadores e patronato – em que a esquerda defende, teoricamente, os interesses dos trabalhadores; e a direita está alinhada com o patronato.
Estes marcadores ideológicos, que reconhecemos na Europa e nas Américas – e que nos permitem distinguir facilmente entre a Direita e a Esquerda – estão largamente ausentes das motivações das elites políticas africanas.
Aqui, o verdadeiro antagonismo é entre o partido da independência; e aquele que se estabeleceu como o partido da oposição.
Em Cabo Verde, estes são o Partido Africano para a Independência de Cabo Verde; e o Movimento para a Democracia, respectivamente.
O PAICV – cuja fundação foi socialista e pan-africanista – deteve o poder até 1990 em regime de partido único. Foi derrotado pelo MpD – de raiz social-democrata – nas primeiras eleições plurais, em 13 de Janeiro de 1991.
Nos últimos 35 anos, a maioria parlamentar tem alternado exclusivamente entre estes dois partidos; e a verdade é que, apesar das filiações, seria extremamente difícil distinguir entre as configurações ideológicas das duas organizações.
No ano passado, nas eleições internas do PAICV, os dois principais candidatos à liderança posicionaram-se abertamente como esquerdistas – muito ao contrário da prática dos seus predecessores, ao longo de três mandatos, entre 2001 e 2016.
Nesse período, o governo de José Maria Neves tudo fez para agradar – pelo menos dicursivamente – os neo-liberais de Washington e da União Europeia. E durante 15 anos, o PAICV sequer mencionou as suas raizes de Esquerda.
O objectivo deste apagamento ideológico era claro: garantir a continuidade dos fluxos de ajuda externa que suportam a nossa existência desde a Independência.
Quando as democracias liberais do Ocidente se tornaram os nossos principais doadores, o PAICV sentiu-se obrigado a fingir que também queríamos ser capitalistas neo-liberais quando fossemos crescidos.
É este o obstáculo fundamental ao exercício da ideologia política em cabo verde: a dependência da nossa economia – e da nossa classe política – na reciclagem de ajuda externa.
Aqui, o Estado financiado pela ajuda internacional controla o acesso ao grosso do emprego e das oportunidades empresariais – que oferece exclusivamente às suas clientelas, enquanto a população mais pobre é apaziguada com assistencialismo. É este o modus operandi dos dois partidos do arco do poder.
Assim como o PAICV professou valores políticos de direita para apaziguar os doadores ocidentais; o MpD adota comportamentos de esquerda, engordando o aparelho do estado e investindo no assistencialismo, para manter os equilíbrios sociais.
Aproximam-se as legislativas. Para além de mais promessas vazias, as campanhas eleitorais lançarão propostas de cariz ideológico. O PAICV apresentar-se-á como o baluarte do interesse popular; e o MpD, como o defensor da democracia liberal. Mas convém lembrar que o Histórico operacional das duas organizações é exatamente o mesmo.