Certa vez, um veterano da política nacional afirmou que, em Cabo Verde, as eleições não se ganham; perdem-se. Numa economia dominada pelo estado, o partido no poleiro detém um poder desmesurado sobre o sentido de voto; e tem que cair de podre antes que o adversário prevaleça.
É verdade; na nossa democracia, a Oposição nunca vence eleições por apresentar as melhores propostas para a governação; vence sempre porque o fracasso da Situação atingiu o limite que os eleitores estão dispostos a suportar.
Foi o que aconteceu em 1991, quando o desgaste do partido único deu uma estrondosa vitória ao MpD, que se apresentou com Carlos Veiga – um candidato simpático, acessível, que contrastava positivamente com a rigidez do poder vigente.
Foi o que aconteceu em 2001, quando o MpD esgotou-se após dois mandatos, e o PAICV apresentou-se de cara lavada com José Maria Neves, um comunicador hábil e persuasivo.
Foi o que aconteceu em 2016, após a revelação da falência do PAICV, quando Ulisses Correia e Silva ganhou a confiança do público afirmando que o seu partido era Cabo Verde e que Cabo Verde tem solução
Há dois elementos comuns a estas três ocasiões. Primeiro, aconteceram num momento em que a organização no poder tinha queimado irrecuperavelmente a sua imagem perante o eleitorado,
Segundo, em cada caso, a Oposição procedeu à construção de uma única personalidade política como o salvador da pátria; e esta foi avidamente aceite pelo eleitor.
Em todos os casos, os recém eleitos gozaram de um período de graça, em que o eleitor ainda se encontrava sob a ilusão da solução; seguiu-se um período de compra da consciência do cidadão; por fim, instalou-se o descalabro.
Este ciclo repete-se periodicamente, com a apresentação de uma personalidade da Oposição como o novo salvador da Pátria.
No final deste mês, o PAICV terá uma nova liderança. Com o eleitorado visivelmente saturado pelo fracasso de Ulisses Correia e Silva, estão reunidas as condições para o modelo nacional de alternância.
Mais uma vez, o manto de salvador da pátria será colocado sobre os ombros de uma personalidade da Oposição. E muito provavelmente o eleitor será defraudado – mais uma vez.
Na verdade, merecemos os desaires sucessivos com que a política nacional nos brinda; eles representam a recompensa pela nossa preguiça política; pelas nossas deficiências de participação.
Quando nos limitamos a esperar por um salvador e a colocar sobre ele a totalidade da responsabilidade pela mudança, só reforçamos o sistema politico bipolar e injusto que nos oprime.
A única via para a mudança é o engajamento politico permanente da sociedade civil; é a produção de alternativas políticas fora das existentes; é a subida do nível de exigência do cidadão. Em suma, é o aumento das expectativas sobre nós próprios, em detrimento dos habituais salvadores fracassados.